Desde que o ser humano “se conhece por gente”, ou melhor dizendo, desde que ele se percebeu como ser vivente e iniciou um questionamento sobre de onde vem e para onde vai, seu conhecimento foi sendo transmitido de geração em geração através das pinturas nas cavernas, pela tradição oral para manter sua cultura e seus costumes (como enterrar os mortos, por exemplo) até que inventou a escrita, a cerca de 4.000 anos antes de Cristo.

O cérebro humano se desenvolveu formando dois lados, chamados hemisférios, como se fossem dois processadores independentes e complementares. Nós temos a capacidade de pensar de modo independente nestes dois lados e cada um pode chegar à sua conclusão utilizando processos diferentes para a tomada de uma decisão, o que ocorre naturalmente, de modo imperceptível. O lado direito do cérebro tem a visão espacial, que se exprime pela arte, não tem noção de tempo e explora o ambiente através das formas, das cores e das emoções. O lado esquerdo tem o processamento racional, do símbolo, da matemática, dos números e da fala, é assim capaz de raciocinar, elaborar perguntas e propaga-las pela forma escrita e verbal.

Pode-se então dizer que o conhecimento humano se transmitiu por meios diferentes conforme é expresso pelo lado esquerdo ou pelo lado direito do cérebro, e também de modo consciente ou inconsciente.

Do entrelaçamento entre consciência e inconsciência, surge de um lado a palavra, a escrita e o ensino formal, e de outro a comunicação não verbal, a arte e a expressão corporal. Além disso, há outra forma, tão importante quanto às citadas, que se dá através dos sonhos, da manifestação das emoções e da formação de arquétipos que criaram os mitos e estórias, as parábolas, contos e mitologias sobre as quais se formaram as religiões. A metafísica (a busca de explicações sobre a essência dos seres, a razão de estarmos no mundo e nossas relações e interações com o Universo) e a Filosofia (que é mais abrangente que a metafísica) tomaram caminhos mais ligados à consciência, por outro lado, todas as religiões ocidentais modernas (a partir do Renascimento) e suas teologias são também baseadas em crenças metafísicas, pois tratam de entidades que não podem ser demonstradas na experiência.

Tudo o que se sabe hoje sobre o homem antigo se conhece pela arqueologia, principalmente, pelas escritas antigas como os hieróglifos, pela arte e pela mitologia antiga.
Isto significa que temos poucas informações sobre a pré-história e a maioria delas foi perdida pelo tempo, pelas guerras e acidentes como, por exemplo, a destruição da biblioteca de Alexandria fundada por Ptolomeu II do Egito em III A.C com cerca de 1 milhão de exemplares e obras completas por diversos eventos (incêndios, invasões) até uma data não conhecida, no máximo até 646 D.C. Ainda assim, o quadro que se poder formar até o momento, permite entender em parte aquilo que somos, o que fizermos, onde erramos e para onde estamos indo, e este é um dos objetivos deste blog.

A maior motivação para o aprendizado e o que mais impulsionou o avanço de conhecimento e a evolução humana no princípio foi certamente a sua necessidade de sobrevivência. Porém temos pouca capacidade de ataque e auto-defesa e os sentidos muito pouco apurados, exceto o paladar; nossa audição é boa apenas na faixa sonora, não escutando ultra e infra-sons e temos um péssimo olfato, não temos dentes afiados para morder e nossa força muscular é irrisória comparada à um leão ou urso, nossa capacidade de escalar e correr não se compara à de um macaco.

Deste modo a evolução se deu através da elaboração e imitação de estratégias para caçar, coletar alimentos e se defender, pelo desenvolvimento da capacidade de reconhecer terrenos e se deslocar por eles usando referências visuais como montanhas, diferenciação das plantas e do solo e a observação das estrelas, pela necessidade de cultivar alimentos e assim desenvolver ferramentas e armadilhas, também usadas para a caça e para a guerra. Pelo desenvolvimento da fala inicialmente através de grunhidos, chiados e imitando os sons de outros animais, sendo um exemplo interessante a linguagem dos bosquímanos na África, feita por estalidos labiais.

No princípio, os homens antigos agiam basicamente por instinto: eram caçadores e coletores nômades. Com o tempo, seu comportamento foi evoluindo até que passaram à prática agrícola. A partir desse momento, eles começaram a criar assentamentos de forma a proteger sua produção de saqueadores. Assim surgiram os primeiros vilarejos. Alguns desses assentamentos conhecidos são Jericó, na Palestina, com cerca de 10.500 anos, e Çatalhöyük, na Turquia, com aproximadamente 9.000 anos de existência.

Segundo uma pesquisa publicada no site da revista Science, o surgimento das savanas na África, entre 3.500 e 4.000 anos atrás, coincidiu com o início da exploração da agricultura no local. A análise de sedimentos no fundo do Rio Congo, um dos maiores do continente, permitiu concluir que a região passou por mudanças climáticas abruptas causadas pelo uso extensivo da agricultura, e aí vemos os primeiros impactos ambientais significativos dos agrupamentos humanos.

Em uma primeira fase, que pode ter durado milhões de anos, podemos inferir que a aquisição e propagação de conhecimentos teve como base principal a formação dos arquétipos e a construção das mitologias originadas pelas dificuldades, ameaças, prazeres e conquistas do cotidiano e chegamos assim aos fundamentos da religiosidade humana. Se esta teoria estiver correta, pode-se afirmar que o tempo que nossos antepassados ficaram submetidos a este processo é tão longo, comparativamente ao posterior, vivido pelo “homem moderno”, que a religiosidade é algo muito mais arraigado às estruturas de pensamento de nosso cérebro do que imaginamos.

Isto pode explicar porque, em pleno século XXI, há pessoas com curso superior que acreditam em duendes que se alimentam de maçãs, na existência de entidades espirituais que tem nome, roupas, comportamentos e formas bem definidas e com as quais se pode comunicar através da magia, ou crêem na força espiritual das pedras e da natureza ou dos símbolos, e tantos outros costumes que tem origem ha centenas de milhares de anos.

Em uma segunda fase, possivelmente entre 10.000 A.C e hoje, o homem aprendeu a transformar mistérios em problemas a serem resolvidos pelo uso da razão, predominando o uso do lado esquerdo do cérebro. A participação ocorreu de tal modo que os desenhos e pinturas rupestres passaram a incorporar símbolos que tinham significados que foram ensinados e assim, pouco a pouco, surgiu a escrita.

Essa foi uma questão chave para o desenvolvimento progressivo do processo científico, isto é, formular teorias, procurar conhecimentos pela observação e experimentação e chegar à uma solução, tendo um meio escrito para guardar o conhecimento e assim, ter a possibilidade de melhora-lo progressivamente com a aplicação do mesmo método, bastando repeti-lo quantas vezes seja necessário. Hoje em dia isto é conhecido como “melhoria contínua” e é a base da competitividade econômica, ou melhor, da sobrevivência de grupos de pessoas que formam unidades chamadas empresas.

Podemos concluir que as formas primordiais principais para transmitir o conhecimento humano foram a imitação, o desenvolvimento da fala, a formação e transmissão dos arquétipos, a formulação de regras e princípios místicos baseados na natureza e posteriormente pela descoberta das relações matemáticas, numéricas e geométricas do ambiente, sendo nossas primeiras referências históricas os sumérios, os egípcios, os assírios, os babilônios e os gregos.

Neste ponto é curioso contemplar a nítida diferença entre os processos simultâneos que levaram aos caminhos da religiosidade e à formação das ciências, dentre as quais a filosofia, a matemática e a astronomia, aqui representada por Hipátia, nascida no Egito em Alexandria e que foi morta pelos cristãos da cidade por ser pagã e não participante do intenso fervor do cristianismo, uma religião em forte expansão no final do império romano. Ao lado, uma imagem do filme espanhol Alexandria (2009), com Rachel Wiesz, e que ilustra magnificamente esta divisão do pensamento humano.

Ao explorar a história da aquisição e da propagação de conhecimento a partir destas fontes chegaremos às bases da Religião e gradativamente à Metafísica, à Filosofia e à Ciência e assim, de modo simplificado, verificamos que existe uma ponte que liga a Religião e a Ciência e que está fundamentada primordialmente nas duas divisões de nosso cérebro e na forma que cada uma encontrou para apresentar soluções à nossa sobrevivência por mecanismos conscientes e inconscientes.

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