Para que qualquer inferência possa ser feita é essencial definir alguns termos e então evitar mal-entendidos ou confusões.

Dando continuidade à frase de Gleiser, apresentada na introdução (post anterior), sabemos que existimos porque, entre outras coisas, somos capazes de pensar, porque somos inteligentes, e assim reconhecemos nossa própria existência. Uma vez que eu penso então eu “existo”, segundo a filosofia apresentada por René Descartes no seu “Discurso sobre o Método”. Aqui, citamos Descartes apenas para assumir que nossa existência é evidente para nós mesmos sem considerar suas outras idéias. Essa é nossa primeira premissa.

A inteligência, nas suas mais variadas manifestações, como, por exemplo, a capacidade de adaptação e resposta a estímulos, é considerada pela Ciência como uma das evidências da existência de vida. Por outro lado, a mesma Ciência ainda não consegue definir com clareza o que é a vida e então poder identifica-la com certeza, caso exista fora de nosso planeta.

Outro ponto a considerar é que a Ciência não utiliza o termo “Deus” ou o aceita como uma entidade, porque ele não é uma propriedade, não pode ser adequadamente definido, ou medido. Ao mesmo tempo que a Ciência está correta em não incluir o termo “Deus” em suas teorias, ela não tem a capacidade, nem o propósito, de dizer qualquer coisa sobre a sua existência ou inexistência. Concordamos assim com o Dr. Marcelo Gleiser sobre o fato de que a ciência não é capaz de provar a inexistência de Deus.

Ocorre, entretanto, que biólogos, físicos teóricos e cosmologistas estão frequentemente dizendo que, não somente Deus não existe, como também, por muitas vezes, ensinando que a religião não acrescenta nada à sociedade humana. Muito embora o alvo desses cientistas seja a ignorância, o misticismo, o extremismo e o radicalismo, tal atitude tomada de modo abrangente é errônea e leva a conseqüências extremamente danosas, como abordado nos posts que tratam sobre “Ciência e Religião”, que se pode acessar clicando no tag “Religião”.

Uma vez que pretendemos aqui partir do pressuposto que Deus não existe, para avaliarmos as consequências disso, nem tampouco a alma e o espírito, então teríamos que primeiro definir suas propriedades e características, definir o que é Deus. Não se pode avaliar o que não se define, nem se mensurar, nem colocar a prova.

Tentar associar ou comparar Ciência e Religião, como se poderá ver, não é uma tarefa possível e por esse motivo, quando um cientista cita a Deus dentro de suas linhas de pesquisa, o resultado, de modo geral, não é compreendido para a maior parte das pessoas.

A Religião o define como: Imortal, Eterno, Invisível, Onisciente, Onipresente e Onipotente. É denominado “Aquele que É”, “Eu Sou” ou יהוה. Esta última forma a considero teologicamente correta, por ser simbólica e não pronunciável, traduzida incorretamente por Javé ou Jeová, termo que descaracteriza a força do símbolo. Esse, porém é um assunto exclusivamente religioso, ou teológico, que não cabe ser analisado aqui.

A definição religiosa de Deus não permite um equacionamento matemático e qualquer tentativa de definição implica em supor o que ele é ou poderia ser, imaginar quais são as suas características, fazendo que isso, por si mesmo, seja um elemento restritivo, limitante, reducionista, e que levará certamente a uma avaliação, sempre imprecisa, do que ele poderia ser, sem jamais alcançar sua verdadeira essência. Conclui-se que qualquer prova da existência de Deus passa primeiro pela impossibilidade lógica de definir o que ele é e, assim, poder tentar demonstrar sua existência. Para o que é relativo, o absoluto torna-se uma incógnita.

Antes de começarmos fica estabelecida então uma premissa que limitará nossa viagem filosófica:

“Provar a existência de um Deus Onisciente, Onipresente e Onipotente é Impossível”.

Uma comparação ilustrativa seria a de tentar descobrir todos os algarismos do número PI com uma calculadora de 8 dígitos.

Do ponto de vista da Religião, pode-se dizer que à medida que a Ciência consegue apresentar teorias e valida-las mediante observação, chega ao conhecimento de parte do que é Deus e passa a conhece-lo, do modo e na linguagem, que pertence ao seu método de investigação.

Comparando então Ciência e Religião chegamos, portanto, à formação de um princípio de incerteza, que poderíamos chamar de “Princípio da Incerteza do Multiverso”:

“O Multiverso proposto pela ciência, ao ser modelado, descreverá parte daquilo que é יהוה e, ao mesmo tempo, nunca poderá ser inteiramente conhecido, porque é inobservável”.

Assim, concordamos com o Dr. Marcelo Gleiser de que a Ciência não será capaz de explicar a realidade por completo.

Encontrar a existência de vida, ou “inteligência criadora” no Multiverso, é o que cientificamente poderia ser a prova da existência de Deus e tal observação também não poderá ser feita, mas poderia ser aceita como um axioma, uma hipótese primária, em concordância com o pensamento de René Descartes, cientista e filósofo. Deus será então definido daqui para frente como “Um ser vivo que é responsável pela nossa criação e a de nosso universo”.

Para o que vamos desenvolver no próximo post tivemos que definir a Deus, e como esta definição rigorosa foi impossível, iremos chama-lo daqui para frente de deus e apresenta-lo “bem menos onipotente e onipresente do que gostaríamos” para poder avaliar indutivamente as conseqüências das premissas do materialismo e mostrar ao final que essas premissas podem ser substituídas por outras, igualmente lógicas e mais coerentes.

continuação: “Consequências-do-materialismo”