Archive for outubro, 2011


O objetivo deste Blog não é falar sobre religião, mas sobre assuntos ligados ao desenvolvimento humano. Nesse aspecto, surgiu durante a elaboração de vários posts a necessidade de pontuar a influência do pensamento no comportamento social e este na sobrevivência da espécie humana. O assunto religião, assim, ficou evidente através de suas interfaces com a ciência e pela crítica que tem sido feita à determinados grupos fundamentalistas, extremistas e radicais, que tem se tornado cada dia mais evidentes.

Surgiu então o post “Ciência e Religião podem Coexistir ?”.

Aqui, para finalizar o assunto, apresento um interessante paralelo entre o capítulo 1 do livro de Gênesis, que narra a criação e o que a ciência tem descoberto até o momento sobre a evolução de nosso sistema solar e a formação da terra.

O leitor poderá observar após a leitura do arquivo em pdf (clique no link “Gênesis” abaixo) que não há porque polemizar debatendo-se cientificamente assuntos religiosos ou religiosamente assuntos científicos, exceto em algumas “janelas”, que se abrem quando um texto religioso passa a ser descritivo de uma realidade objetiva.

A comparação nesse caso pôde ser feita porque o Capítulo 1 é uma dessas “janelas” possíveis, onde o texto apresenta uma narrativa objetiva e sequencial da criação, o que na maioria das vezes não ocorre (no capítulo 2 por exemplo), tornando impossível nesse caso qualquer correlação com a ciência e portanto qualquer debate científico sobre o texto.

Ir além disso significa penetrar em áreas sombrias, comparando e misturando espécies diferentes, algo que a matemática elementar não permite e nem o próprio texto de Gênesis quando diz que Deus criou espécies para que elas não se misturassem geneticamente reinando o caos e a confusão (imaginem que monstros haveriam se as espécies cruzassem entre si !).

Após a leitura ficará evidente como o texto religioso trata simplificadamente os assuntos científicos, e não haveria como nem porquê ser diferente. Ele não se precupa com fatos e detalhes fora de seu propósito principal que é a revelação dos princípios morais e espirituais e, assim sendo, torna-se necessária uma análise semântica apurada para entender o que ele está dizendo, para que não seja interpretado e seguido “ao pé da letra” e se possa discernir quando há uma simples narrativa, ou descrição e quando o texto está utilizando recursos e figuras de linguagem para ilustrar verdades espirituais de difícil compreensão à luz da experiência do cotidiano.

Pessoalmente, entendo que Deus preferiu separar ciência e religião, a ciência para ajudar o homem a trabalhar, “arando a terra com o suor de seu rosto” de modo a “dominar sobre toda a criatura” exercendo uma liderança responsável e a religião para aqueles que buscam na essência encontrar “o caminho, a verdade e a vida”.

Ciência e religião são para todos. Gênesis – clique aqui para baixar o arquivo pdf

Gênesis: análise do texto pelo autor…


foto do telescópio Hubble mostrando a nebulosa de Orion. Foi a partir de uma nebulosa semelhante a esta que nasceu nosso sistema solar

No post “O Princípio da Incerteza no Multiverso” eu prometi escrever algo sobre ciência x religião. Lá foi dito que ambas usam vocabulários diferentes requerendo uma análise semântica (do real significado das palavras) para se poder comparar pensamentos similares; utilizam métodos distintos e tem objetivos diferentes. Sendo assim, não haveria porque haver confronto mútuo ou mesmo comparação entre elas.

Existem, porém, intersecções entre a ciência e a religião, assim como ocorre em qualquer campo de atividade ou conhecimento e é justamente aí que começam as questões e surge o objetivo deste post. A interseção que nos interessa comentar e se apresenta nos posts da série “Filosofia”, é a existência de Deus (vide a série de 6 posts “Afinal, Deus Existe ?”), se há vida inteligente responsável pelo nosso aparecimento na Terra (vide “O Limite da Ciência”) e sobre a existência de uma dimensão não material ligada à vida, de modo a ser o fator que a caracterize e a diferencie de estruturas meramente materiais. Apresentamos em Gênesis uma interessante ponte entre a Ciência e a Religião para mostrar que em alguns casos ambas também podem convergir ao mesmo ponto.

Na cosmologia e na biologia (particulamente na exobiologia), esses assuntos são tratados e discutidos, utilizando palavras como Multiversos, dimensões extras e a busca de vida extraterrestre, assuntos que ao serem traduzidos em palavras diferentes, como “Deus” ou “alma” ou “espírito”, ou “criação”, ou “anjos”, levam invariavelmente à polêmica. A teoria da evolução, a idade da terra, a origem da vida, a busca de extra-terrestres e de vida no universo são assuntos tratados pela ciência e pela religião, e esta é uma zona que poderia ser de debate, mas na prática é de conflito, porque a maior parte das pessoas ou não conhecem a religião, ou não conhecem a ciência, ou não estão preparadas para conviver com as duas coisas simultaneamente.

No post “A Evolução do Pensamento” mostramos que, na verdade, não se poderá separa-las, porque são fruto do pensamento humano e provenientes do lado direito e do lado esquerdo do cérebro, criados como ferramentas para a nossa sobrevivência como espécie.

Poderá a ciência um dia substituir a religião ?

Provavelmente não, há uma respeitável corrente de pensamento segundo a opinião de muitos cientistas e filósofos que diz que a ciência nunca poderá conhecer e explicar toda a verdade, uma questão interessante e que tem gerado debates. Enquanto houver mistério e o senso de algo oculto a ser revelado, provavelmente haverá a religião para explicar.

Há porém aqueles que querem alcançar isto pelo conflito de ideias, grupos que generalizam e desprezam a religião reduzindo-a a uma forma de misticismo e ignorância. Alguns, pelo fato exclusivo de se considerarem cientistas ou pensadores, entendem que devem ser ateus, ou agnósticos até que fatos mostrem o contrário. A escolha individual do ateísmo ou do agnosticismo constitui-se em si mesmo uma questão pessoal de convicção de fundo religioso, moral ou de valores, mas não de caráter científico.

O erro está em tratar os religiosos como ignorantes ou místicos e colocar sob a mesma medida aqueles que professam uma fé baseada em pensamentos e atos progressistas e aqueles que professam sua fé pregando a divergência e o confronto.

Poderá a religião substituir a ciência ?

Sim, o fundamentalismo pode aniquilar qualquer coisa, a começar pela vida humana. São grupos que afirmam que a ciência é falsa quando há conflito com seus livros sagrados, conforme sua particular interpretação. A verdadeira religião, no entanto, segue as leis científicas reconhecendo-as como provenientes do criador.

Igualmente, nada impede que se possa expressar opiniões de caráter religioso que coloquem em descrédito algumas teorias científicas ainda não consolidadas, como a existência de universos paralelos ou Multiversos, ou inteligência alienígena, porém existem grupos que se opõem ao conhecimento atrasando o desenvolvimento e impedem assim a sociedade de alcançarem a libertação que pregam, uma vez que não respeitam a liberdade de expressão, as diferenças de pensamento, e principalmente, a busca da verdade. Um triste exemplo é a história da filósofa Hipátia, morta pelos cristãos na cidade de Alexandria no ano 415 DC. Mas isto vale também para convicções políticas como ocorreu no caso do Comunismo que causou o atraso no desenvolvimento da genética na extinta URSS por desprezar a teoria de Mendel por ser “ocidental” (um austríaco que era um religioso, um monge agostiniano), perseguindo, demitindo e até prendendo cientistas que a divulgavam.

Ambas as correntes cometem um erro fundamental. Religiosos fundamentalistas “desprezam o dom de Deus revelado na essência do ser humano” que é a sua inteligência, através da ordenação para que o homem “domine sobre toda a criação” pela busca da verdade. Os pseudo-cientistas por que não entenderam que a ciência não é capaz de avaliar aquilo que não consegue observar e medir, “a ciência é impotente para medir um Deus onipotente”.

“A geometria dos fractais não é apenas um capítulo da matemática mas também uma forma de ajudar os homens a verem o mesmo velho mundo diferentemente”
Bernoit Mandelbrot – 1924-2010

O filme “The Butterfly Effect” de 2004, estrelado por Ashton Kutcher, usa em sua fantasia conceitos de física teórica como Multiversos e Teoria do Caos e se inicia com a seguinte frase:

“Uma vez foi dito que algo tão pequeno como uma borboleta pode, ao bater de suas asas, causar um tufão do outro lado do mundo”.

Fantasias a parte, existe um significado científico para esta frase e isto se aplica a todos os fenômenos complexos, aqueles que são formados por inúmeras variáveis interligadas, algumas aleatórias (que acontecem por acaso) e outras deterministas (que acontecem conforme uma lei física ou matemática) produzindo efeitos e conseqüências imprevisíveis. O personagem do filme voltava ao passado através de suas memórias registradas no diário e então tentava controlar o futuro até perceber que as consequências de pequenas atitudes podiam ser devastadoras.

Vejamos um exemplo simples: as imagens formadas por um caleidoscópio, onde cada parte dela é igual entre si formando o todo. Você coloca alguns pedaços de vidro colorido no fundo de um tubo que tem espelhos e, ao girar o tubo, observa as figuras formadas. Dependendo do número e formato dos cristais e da quantidade de cores e espelhos usados, o número de combinações possíveis refletidas será tão grande, que é improvável que você veja duas imagens iguais e, mais improvável ainda, que consiga saber que imagem será formada antes de girar o tubo.

A Teoria do Caos mostra que quanto mais variáveis imprevisíveis influenciarem um sistema, menos previsível será o seu resultado. Acontece que diversos fenômenos da natureza são, em maior ou menor grau, previsíveis, regidos por alguma lei ou princípio físico e então nestes sistemas ocorre uma “previsibilidade dentro do imprevisível”. Um exemplo é o movimento de macro-partículas dentro de um líquido, resultando no “movimento browniano” estudado por Albert Einstein em 1905. Mais tarde verificou-se que há um “padrão escondido” nesse movimento, que foi caracterizado como um movimento fractal. Veja a importância disso: aplica-se no movimento de proteínas, difusão celular, síntese de ATP… assuntos ligados à origem da vida !

Veja outro exemplo, aplicado à previsão do tempo, mais parecido com a frase do filme “O Efeito Borboleta” :

“Em 19 de fevereiro de 1998, computadores do sistema de previsão de tempestades tropicais dos Estados Unidos diagnosticaram a formação de uma tempestade tropical sobre Louisiana em três dias. Sobre o Oceano Pacífico um meteorologista daquela agência descobriu que havia uma pequena diferença nas medições executadas. Em função das diferenças, houve uma realimentação de dados nos computadores, estes refazendo os cálculos previram que a formação da tempestade tropical em Louisiana não ocorreria, mas haveria sim a formação de um tornado de proporções gigantescas em Orlando, na Flórida, o que realmente ocorreu em 22 de fevereiro de 1998.”

Se aumentarmos ainda mais a previsibilidade das variáveis chegamos aos Fractais, aquelas bonitas figuras formadas por computador, mas que representam a matemática da Teoria do Caos.

O que caracteriza um fractal (do latim fractus, fração) é que cada uma das partes que o constitui é semelhante entre si, ou numa linguagem mais elaborada “são objetos gerados pela repetição de um mesmo processo recursivo, apresentando auto-semelhança e coplexidade infinita”.

Estes elementos são formados por equações matemáticas ou estatísticas que apresentam uma relação entre cada objeto e o todo. O Floco de Neve de Koch, por exemplo, criado em 1904, resulta de infinitas adições de triângulos ao perímetro de um triângulo inicial. Assim, cada vez que triângulos são adicionados, o perímetro aumenta tendendo ao infinito, porém circunscrevendo uma área finita, “é o finito envolvido pelo infinito”…

Uma vez que um fractal é uma figura complexa e irregular formada por equações matemáticas, e dependendo da quantidade de variáveis que “deixamos em aberto”, que são aleatórias, ele acaba por representar figuras reais, naturais, aproximando nesses casos a matemática do sonho de René Descartes, que acreditava que todas as coisas poderiam ser descritas pela matemática.

Ocorre, por exemplo, com as árvores e as samambaias, ou com um broto de brócolis, nas nuvens, montanhas, rios e seus afluentes, nos ramos dos vasos sanguíneos e nos feixes nervosos, descrevendo objetos irregulares do mundo real mas que guardam uma relação lógica entre o todo e suas partes.

Aplicando isto à nossa vida, ao se tomar uma decisão mínima, considerada muitas vezes insignificante, poderemos gerar uma transformação inesperada num tempo futuro, pense nisto ao estender a mão para ajudar alguém, lembre-se que você poderá estar transformando o futuro desta pessoa e construindo de modo inimaginável um mundo onde vale a pena viver, pense nisto ao deitar e ao levantar, que você tem a incrível capacidade de escolher e, este poder é bem maior do que você pensava.