Archive for março, 2012


Em 1905 Albert Einstein apresentou ao mundo a sua “Teoria da Relatividade Restrita”, que é conceitualmente simples, mas que chega a conclusões surpreendentes, e onde surgiu a famosa equação E = m.c2 que revolucionou o mundo científico e abriu novas linhas de pesquisa no campo filosófico. Mais tarde (em 1915), Einstein incluiu a influência dos campos gravitacionais nesta teoria, ampliando a sua abrangência e chamando-a de “Teoria da Relatividade Generalizada”.

Sua grande contribuição está em apresentar o tempo como uma variável dependente e não mais absoluta, ou seja, o tempo é uma quarta dimensão junto com as três variáveis físicas (distância, comprimento e largura) e pode variar para um dado referencial (uma pessoa localizada em uma posição do espaço, por exemplo), conforme sua velocidade e proximidade das forças da gravidade. Previu também que o espaço “se curva” na presença das forças da gravidade e que a luz seria desviada.

Einstein afirmou que quanto maior a força da gravidade em uma determinada região ocupada por um corpo que contém massa, maior será o efeito de distorção do tempo e do espaço na sua proximidade.
Uma idéia então surgiu para testa-la, a de medir o desvio que a luz de uma estrela teria ao ser observada durante um eclipse solar total.

A ciência trabalha com observações, faz hipóteses, desenvolve teorias e cria modelos matemáticos para fazer previsões e verificar se eles realmente funcionam e com que precisão.

Assim, somente no dia 29 de maio de 1919, na cidade de Sobral no Ceará, na época com apenas 2.000 habitantes, um grupo de astrônomos da Royal Astronomical Society de Londres comprovou pela primeira vez parte desta teoria durante um eclipse total do Sol.

A deflexão (encurvamento) da trajetória da luz de uma estrela passando rasante no bordo solar foi de 1.80 ± 0.23 segundo de arco, em excelente acordo com os 1.75 segundo de arco previsto pela Teoria da Relatividade Geral de Einstein. O valor deduzido a partir da teoria da Gravitação Universal de Newton era de 0.78 segundos (supondo que a luz fosse composta por partículas). Essa diferença numérica parece pouca, mas corresponde a diferentes modelos conceituais sobre a gravitação, e um deles devia ser descartado.

O eclipse solar de 1919 em Sobral ofereceu as melhores perspectivas até hoje, por ter sido excepcionalmente longo (5 minutos) e pelo Sol ter passado sobre um campo rico de estrelas brilhantes (aglomerado das Hyades).

É importante destacar que o sucesso da missão inglesa que comprovou a teoria de Einstein se deveu, em parte, ao apoio logístico e dos levantamentos do Observatório Nacional do Rio de Janeiro e que a outra missão, realizada em paralelo na ilha do Príncipe, costa atlântica da África, apresentou fotografias de má qualidade, devido ao mau tempo.

A Teoria da Relatividade e o experimento em Sobral são elementos do intimista e silencioso drama “Casa de Areia” (2005) dirigido por Andrucha Waddington que foi vencedor do Grande Prêmio Cinema Brasil (2006), entre outros, estrelado por Fernanda Montenegro e Fernanda Torres com o ator e músico “Seu Jorge”.

À semelhança do célebre experimento mental conhecido como “O Paradoxo dos Gêmeos” há no filme brasileiro também uma contradição simbolizada pela rima temática da escalação de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres para viverem as mesmas personagens em idades diferentes.

Em um determinado espaço onde há silêncio e solidão, o tempo avança lentamente como em uma ampulheta simbolizado pelo movimento plástico e imperceptível da areia que lentamente envolve tudo. Neste cenário, ocorre a saga de três gerações de mulheres que se deparam com o desafio de sobreviver em uma natureza inóspita e sem perspectivas.

A região espacial imposta pelas dunas brancas e infinitas simboliza uma barreira do espaço-tempo, uma prisão natural que conduz à um destino do qual não se pode escapar, criando nos personagens uma reação de negação desta inexorável realidade.

Do outro lado desta região há uma realidade paralela onde acontecem duas grandes guerras mundiais, a teoria da relatividade é comprovada e o homem vai à Lua, contrapondo eventos simultâneos que ocorrem em velocidades muito diferentes. Ocorre entretanto, um encontro destes dois mundos quando a equipe que irá realizar o célebre experimento encontra uma destas mulheres, Áurea, que vive a esperança de ser resgatada por eles.

O filme Casa de Areia foi inspirado na foto de uma casa envolvida por uma duna. De certo modo, pode-se dizer que a areia contida em Sobral, ilustrada pelo magnífico cenário dos Lençóis Maranhenses onde o filme foi rodado, é como uma ampulheta que marcou o Brasil no tempo da história da ciência, uma ampulheta de Einstein.

Dando continuidade ao post “A Evolução do Pensamento”, lá descobrimos um dos pilares que fundamentam a nossa sociedade, baseado nas soluções paralelas que foram propostas e desenvolvidas pelos dois hemisférios de nosso cérebro e que fundamentaram a nossa caminhada terrestre e permitiram a sua percepção através da vivência e experimentação.

O homem encontrou soluções para sua sobrevivência e que levaram ao desenvolvimento simultâneo do conhecimento formal objetivo e a exploração do espaço metafísico, e que geraram então duas grandes áreas, a ciência e a religião.

O que mostramos até aqui, é que ambas estão entrelaçadas e são importantes e necessárias à sobrevivência em nossa caminhada terrestre e foram capazes de gerar civilizações com grande avanço social, como os Sumérios, que inventaram a escrita cuneiforme, os Babilônios, que criaram o famoso “Código de Hamurabi” que tinha por objetivo defender a honra, a família e sua dignidade e prosperidade e criaram um dos grandes centros da antiguidade. Os egípcios, que souberam integrar a matemática, a astronomia e a arquitetura a serviço de sua interpretação do universo e finalmente a Grécia, onde surgiram os principais filósofos representados por Pitágoras (571 A.C), Platão (427 A.C) e Aristóteles (384 A.C).

Os gregos não acreditavam que a natureza humana era fundamentalmente selvagem por sua capacidade em reconhecer o bom e o verdadeiro e então decidir-se por buscar o bem comum como seres políticos, e não simplesmente gregários como os animais, e assim reconhecer o direito universal e a justiça estabelecendo a comunhão com o mundo natural.

A escola grega chamada Estóica dizia que “o objetivo do homem é viver em harmonia com a natureza. Viver em harmonia com a natureza é viver virtuosamente, e viver virtuosamente é viver feliz”.

Os antigos entendiam que a sociedade humana era um microcosmo pertencente a um macrocosmo, seres finitos contidos no infinito da eternidade e não poderia haver a separação entre o homem natural e Deus. A religião e a ciência, a mente e a matéria, faziam parte de um todo vivo e consciente e todas as partes do mundo vivo compunham a totalidade do universo.

Agora faço uma pergunta: Qual a importância da harmonia entre as propostas científicas e religiosas? Como esta harmonia pode existir? Há alguma relação entre isto e o modo como agredimos a natureza e estamos sendo conduzidos para um consumismo sem limites?

É o que veremos neste post. Como parte do objetivo deste blog, que busca a preservação da espécie humana, nos cabe reconhecer e apresentar problemas desafiadores e então buscar as soluções possíveis.

Ao se estudar a história da filosofia percebe-se que houve uma clara ruptura entre este pensamento antigo e o moderno. Mesmo com as sociedades beligerantes, as conquistas e dominações romanas, o expansionismo da igreja católica e suas guerras e o fundamentalismo islâmico e cristão, houveram pensadores que mantiveram esta conexão. Um exemplo é Tomás de Aquino, no século XIII, que não enxergava a separação entre Deus e sua criação e ensinava que devemos experimentar o mundo do interior para o exterior sendo o mundo natural uma expressão da criação de Deus e afirmou que não pode haver contradição entre a fé e a razão.

E essa visão é holística, é universal. É coerente com diversas culturas indígenas no mundo, que não sofreram a influência do cristianismo; com o Islamismo, representado pelo Alcorão, que ensina que a natureza possui organização inteligente onde se pode reconhecer a grandeza de Alá. Apresenta compatibilidade com o Taoísmo na China e a tradição védica na Índia em que a “Sanatana Dharma” (सनातन धर्म) ou “Lei sempre Viva” é semelhante à “Lei Eterna” de Tomás de Aquino.

Enquanto existem pessoas que não conhecem ciência ou religião, existem também aqueles que confundem e misturam as duas coisas criando uma mistificação ignorante, há os que acreditam que a religião é a causa de todos os males da humanidade e deveria ser extinta, aniquilando culturas e conhecimentos antigos e prendendo seus seguidores e existem aqueles que acreditam que a ciência não é necessária, porque a presença de Deus supre todas as coisas e podemos nos isolar e viver como os povos da pré-história, ou que ser religioso é obrigar as pessoas a terem os mesmos pensamentos perseguindo e matando os dissidentes.

Será que não existe um termo de harmonia entre as propostas? Não é possível que o homem entenda que a busca do conhecimento metafísico passa por uma expressão religiosa saudável que constrói princípios de convivência social em respeito à natureza e que direciona a Ciência ao bem comum?

Há um abalo nos fundamentos da sociedade moderna que estamos vivenciando intensamente e que foi predominante a partir da Revolução Industrial e encontrou seu ápice no século XX, algo que poucas pessoas atualmente sabem ou se dão conta de existir.

Esta inconsistência ou “não conformidade” é uma das causas raiz dos problemas do mundo moderno e resulta na interferência e na modificação dos ciclos da natureza por causa da poluição, na destruição das espécies, na impotência diante da fome e das desigualdades sociais, na incapacidade em estabilizar o crescimento populacional, na incapacidade de comunicação entre sociedades “democráticas”, militarizadas e teocráticas (EUA, Coréia do Norte e Irã, por exemplo) e na desvinculação entre as novas soluções tecnológicas, estilos de vida e mesmo da arte contemporânea, que definem nosso modo e estilo de vida, ao ecossistema, sem haver uma visão holística.

Como se pode facilmente observar, e foi objeto de diversos posts até aqui, há neste século uma tendência de polarização crescente entre a ciência e a religião e nós citamos cientistas que entendem que a religião é um atraso completo para a humanidade e há religiosos que entendem que a ciência não pode ser opor ao fundamentalismo de suas escrituras.

Mas qual é o resultado em dividir as pessoas para se posicionarem em um dos dois lados ?

O primeiro efeito evidente é a oposição de pensamentos antagônicos e como consequência atitudes de agressão e violência, conforme temos acompanhado citando a perseguição dos monges budistas no Tibete pela China e dos cristãos na Arábia Saudita, e também citando as atrocidades humanas cometidas pelos Cruzados, a Santa Inquisição e suas barbaridades em nome de deus, a perseguição de Copérnico e Galileu por considerarem que a Terra não era o centro do universo e o desprezo pelas causas sociais e da preservação da natureza por muitas religiões “espiritualizadas” completamente desconectadas dos problemas “reais” da humanidade.

Mas há um efeito ainda mais perigoso. À medida que o ser humano se empobrece deixando de se questionar de onde veio e para onde vai, deixando de acreditar na imortalidade da alma e que o Universo foi formado por uma inteligência superior, sendo pura obra do acaso, conforme afirmado veementemente por cientistas ilustres, então se esvazia sua alma, sua capacidade de ver um todo eterno e harmônico, interconectado por padrões reconhecíveis provenientes de uma inteligência formadora, anulando sua capacidade de admirar a integralidade da ética e a fortaleza da virtude.

Precisamos então da Religião e por isso devemos acreditar em Deus ?

Não se trata disto, mas sim da necessidade de questionamento metafísico e filosófico à exemplo de Pitágoras e Platão para que “a alma não esqueça o verdadeiro conhecimento ao descer de sua condição imaculada e celestial para fazer parte somente do mundo material”.

Questionamento este que está sendo perdido, que não é matéria escolar, que não se encontra em igrejas que apresentam seus dogmas já prontos e indiscutíveis, e na ciência que tem por propósito perpetuar aquilo que possui valor econômico aparente. Uma ciência que elimina a vinculação e a harmonia entre o ser humano e seu universo, a natureza e sua unidade, fazendo-o senhor de si mesmo e ao mesmo tempo reduzindo-o a nada. Uma ciência aprisionada por empresas que financiam estudos que buscam resultados unicamente para alavancar suas vendas.

A ciência que se contrai, porque busca incógnitas discretas que assumem valores finitos e temporários, com restrições e condições de contorno bem definidos, dentro da rudimentar previsibilidade da limitação de interesses orientada ao utilitarismo, enquanto poderia se expandir como uma ferramenta para encontrar grandezas de fluxo e conteúdo energético que resultem em infinitos caminhos e miríades de estados definidos pelas variações particulares de seus elementos.

A desconexão entre ciência e a religião, ou se preferirem, entre a ciência e a busca da verdade metafísica, é como a separação entre o homem e a mulher, de modo que não mais precisem um do outro e andem por caminhos distintos, o que em parte temos visto em alguns movimentos sociais do século XX e pela impressionante quantidade de divórcios. É como a separação entre a onda e a partícula, como se na física atual se pudesse explicar o comportamento da luz sem assumir que ela se comporta segundo estas duas teorias. É como querer separar cargas elétricas opostas, de modo que cada uma siga seu caminho sem buscarem incessantemente uma à outra, sem que haja um elemento terra onde este fluxo possa repousar.

Observe como as dualidades fazem parte de nosso universo e como foram percebidas pelos povos do oriente originando as palavras Yin e Yang representadas pelo símbolo do Tao, e como estes povos incorporaram então este conhecimento para aplicarem em seu cotidiano, desenvolvendo, por exemplo, a acupuntura e regras de convivência harmônica com a natureza ensinada pelo Feng Shui.

Constata-se no mundo moderno, diferentemente do mundo antigo, que não está ocorrendo uma busca de soluções respeitando os ciclos da natureza, que eram percebidos e tratados como obras da divindade e então respeitados.

Há também, como desdobramento do mesmo problema, uma crença cega nas “maravilhas da ciência” sem qualquer interesse em conhecer seus fundamentos em sem questiona-los, exemplificando a influência do consumo de alimentos geneticamente modificados. Há uma perda generalizada de interesse pelas questões fundamentais da vida, da filosofia, da ética, dos problemas sociais e dos desafios que estamos enfrentando no mundo atual.

Paralelamente, há uma busca pelo prazer, pelo benefício próprio e exclusivo, a busca de soluções imediatas que se resolvem por implantes de seios e glúteos, a necessidade do aumento do pênis, o consumo abusivo de Viagra e o uso exponencial de cosméticos e medicamentos para emagrecer. Há uma crise de inteligência criativa, uma tendência a aceitar paradigmas e um agnosticismo social marcante.

A natureza do homem é por sua vez orientada a buscar soluções reais baseadas na visão consciente e na razão, ao mesmo tempo que pode viver abstrações emotivas criando sua própria percepção da realidade e reagindo consciente e inconscientemente a ela.

A essência da natureza humana é a busca da verdade por aquilo que consegue ver com os olhos de sua mente e alma para então encontrar a Harmonia entre os dois hemisférios de seu cérebro entrelaçados através de seus processos conscientes e inconscientes. Processos que se expressam em última análise através das ferramentas da ciência e nas respostas que encontra para as perguntas fundamentais que o ser faz a si mesmo em um ato contínuo na busca do auto-conhecimento.

Perguntas e respostas que são a essência da metafísica em sua expressão religiosa mais genuína, e que definirão nossas escolhas, formarão nossa base de valores e moldarão nossa personalidade pela afirmação ética e moral diante dos estímulos que receberemos dos desafios do presente século para nossa perpetuação individual e coletiva.

Precisamos lembrar de nossas raízes, do modo como as civilizações foram formadas e como elas consideraram a aliança entre a ciência e a espiritualidade, e cuidar melhor de nossa casa para que o nosso futuro seja próspero e contínuo e mesmo eterno,

porque com nossos pensamentos criamos o mundo

Buda