Dando continuidade ao post “A Evolução do Pensamento”, lá descobrimos um dos pilares que fundamentam a nossa sociedade, baseado nas soluções paralelas que foram propostas e desenvolvidas pelos dois hemisférios de nosso cérebro e que fundamentaram a nossa caminhada terrestre e permitiram a sua percepção através da vivência e experimentação.

O homem encontrou soluções para sua sobrevivência e que levaram ao desenvolvimento simultâneo do conhecimento formal objetivo e a exploração do espaço metafísico, e que geraram então duas grandes áreas, a ciência e a religião.

O que mostramos até aqui, é que ambas estão entrelaçadas e são importantes e necessárias à sobrevivência em nossa caminhada terrestre e foram capazes de gerar civilizações com grande avanço social, como os Sumérios, que inventaram a escrita cuneiforme, os Babilônios, que criaram o famoso “Código de Hamurabi” que tinha por objetivo defender a honra, a família e sua dignidade e prosperidade e criaram um dos grandes centros da antiguidade. Os egípcios, que souberam integrar a matemática, a astronomia e a arquitetura a serviço de sua interpretação do universo e finalmente a Grécia, onde surgiram os principais filósofos representados por Pitágoras (571 A.C), Platão (427 A.C) e Aristóteles (384 A.C).

Os gregos não acreditavam que a natureza humana era fundamentalmente selvagem por sua capacidade em reconhecer o bom e o verdadeiro e então decidir-se por buscar o bem comum como seres políticos, e não simplesmente gregários como os animais, e assim reconhecer o direito universal e a justiça estabelecendo a comunhão com o mundo natural.

A escola grega chamada Estóica dizia que “o objetivo do homem é viver em harmonia com a natureza. Viver em harmonia com a natureza é viver virtuosamente, e viver virtuosamente é viver feliz”.

Os antigos entendiam que a sociedade humana era um microcosmo pertencente a um macrocosmo, seres finitos contidos no infinito da eternidade e não poderia haver a separação entre o homem natural e Deus. A religião e a ciência, a mente e a matéria, faziam parte de um todo vivo e consciente e todas as partes do mundo vivo compunham a totalidade do universo.

Agora faço uma pergunta: Qual a importância da harmonia entre as propostas científicas e religiosas? Como esta harmonia pode existir? Há alguma relação entre isto e o modo como agredimos a natureza e estamos sendo conduzidos para um consumismo sem limites?

É o que veremos neste post. Como parte do objetivo deste blog, que busca a preservação da espécie humana, nos cabe reconhecer e apresentar problemas desafiadores e então buscar as soluções possíveis.

Ao se estudar a história da filosofia percebe-se que houve uma clara ruptura entre este pensamento antigo e o moderno. Mesmo com as sociedades beligerantes, as conquistas e dominações romanas, o expansionismo da igreja católica e suas guerras e o fundamentalismo islâmico e cristão, houveram pensadores que mantiveram esta conexão. Um exemplo é Tomás de Aquino, no século XIII, que não enxergava a separação entre Deus e sua criação e ensinava que devemos experimentar o mundo do interior para o exterior sendo o mundo natural uma expressão da criação de Deus e afirmou que não pode haver contradição entre a fé e a razão.

E essa visão é holística, é universal. É coerente com diversas culturas indígenas no mundo, que não sofreram a influência do cristianismo; com o Islamismo, representado pelo Alcorão, que ensina que a natureza possui organização inteligente onde se pode reconhecer a grandeza de Alá. Apresenta compatibilidade com o Taoísmo na China e a tradição védica na Índia em que a “Sanatana Dharma” (सनातन धर्म) ou “Lei sempre Viva” é semelhante à “Lei Eterna” de Tomás de Aquino.

Enquanto existem pessoas que não conhecem ciência ou religião, existem também aqueles que confundem e misturam as duas coisas criando uma mistificação ignorante, há os que acreditam que a religião é a causa de todos os males da humanidade e deveria ser extinta, aniquilando culturas e conhecimentos antigos e prendendo seus seguidores e existem aqueles que acreditam que a ciência não é necessária, porque a presença de Deus supre todas as coisas e podemos nos isolar e viver como os povos da pré-história, ou que ser religioso é obrigar as pessoas a terem os mesmos pensamentos perseguindo e matando os dissidentes.

Será que não existe um termo de harmonia entre as propostas? Não é possível que o homem entenda que a busca do conhecimento metafísico passa por uma expressão religiosa saudável que constrói princípios de convivência social em respeito à natureza e que direciona a Ciência ao bem comum?

Há um abalo nos fundamentos da sociedade moderna que estamos vivenciando intensamente e que foi predominante a partir da Revolução Industrial e encontrou seu ápice no século XX, algo que poucas pessoas atualmente sabem ou se dão conta de existir.

Esta inconsistência ou “não conformidade” é uma das causas raiz dos problemas do mundo moderno e resulta na interferência e na modificação dos ciclos da natureza por causa da poluição, na destruição das espécies, na impotência diante da fome e das desigualdades sociais, na incapacidade em estabilizar o crescimento populacional, na incapacidade de comunicação entre sociedades “democráticas”, militarizadas e teocráticas (EUA, Coréia do Norte e Irã, por exemplo) e na desvinculação entre as novas soluções tecnológicas, estilos de vida e mesmo da arte contemporânea, que definem nosso modo e estilo de vida, ao ecossistema, sem haver uma visão holística.

Como se pode facilmente observar, e foi objeto de diversos posts até aqui, há neste século uma tendência de polarização crescente entre a ciência e a religião e nós citamos cientistas que entendem que a religião é um atraso completo para a humanidade e há religiosos que entendem que a ciência não pode ser opor ao fundamentalismo de suas escrituras.

Mas qual é o resultado em dividir as pessoas para se posicionarem em um dos dois lados ?

O primeiro efeito evidente é a oposição de pensamentos antagônicos e como consequência atitudes de agressão e violência, conforme temos acompanhado citando a perseguição dos monges budistas no Tibete pela China e dos cristãos na Arábia Saudita, e também citando as atrocidades humanas cometidas pelos Cruzados, a Santa Inquisição e suas barbaridades em nome de deus, a perseguição de Copérnico e Galileu por considerarem que a Terra não era o centro do universo e o desprezo pelas causas sociais e da preservação da natureza por muitas religiões “espiritualizadas” completamente desconectadas dos problemas “reais” da humanidade.

Mas há um efeito ainda mais perigoso. À medida que o ser humano se empobrece deixando de se questionar de onde veio e para onde vai, deixando de acreditar na imortalidade da alma e que o Universo foi formado por uma inteligência superior, sendo pura obra do acaso, conforme afirmado veementemente por cientistas ilustres, então se esvazia sua alma, sua capacidade de ver um todo eterno e harmônico, interconectado por padrões reconhecíveis provenientes de uma inteligência formadora, anulando sua capacidade de admirar a integralidade da ética e a fortaleza da virtude.

Precisamos então da Religião e por isso devemos acreditar em Deus ?

Não se trata disto, mas sim da necessidade de questionamento metafísico e filosófico à exemplo de Pitágoras e Platão para que “a alma não esqueça o verdadeiro conhecimento ao descer de sua condição imaculada e celestial para fazer parte somente do mundo material”.

Questionamento este que está sendo perdido, que não é matéria escolar, que não se encontra em igrejas que apresentam seus dogmas já prontos e indiscutíveis, e na ciência que tem por propósito perpetuar aquilo que possui valor econômico aparente. Uma ciência que elimina a vinculação e a harmonia entre o ser humano e seu universo, a natureza e sua unidade, fazendo-o senhor de si mesmo e ao mesmo tempo reduzindo-o a nada. Uma ciência aprisionada por empresas que financiam estudos que buscam resultados unicamente para alavancar suas vendas.

A ciência que se contrai, porque busca incógnitas discretas que assumem valores finitos e temporários, com restrições e condições de contorno bem definidos, dentro da rudimentar previsibilidade da limitação de interesses orientada ao utilitarismo, enquanto poderia se expandir como uma ferramenta para encontrar grandezas de fluxo e conteúdo energético que resultem em infinitos caminhos e miríades de estados definidos pelas variações particulares de seus elementos.

A desconexão entre ciência e a religião, ou se preferirem, entre a ciência e a busca da verdade metafísica, é como a separação entre o homem e a mulher, de modo que não mais precisem um do outro e andem por caminhos distintos, o que em parte temos visto em alguns movimentos sociais do século XX e pela impressionante quantidade de divórcios. É como a separação entre a onda e a partícula, como se na física atual se pudesse explicar o comportamento da luz sem assumir que ela se comporta segundo estas duas teorias. É como querer separar cargas elétricas opostas, de modo que cada uma siga seu caminho sem buscarem incessantemente uma à outra, sem que haja um elemento terra onde este fluxo possa repousar.

Observe como as dualidades fazem parte de nosso universo e como foram percebidas pelos povos do oriente originando as palavras Yin e Yang representadas pelo símbolo do Tao, e como estes povos incorporaram então este conhecimento para aplicarem em seu cotidiano, desenvolvendo, por exemplo, a acupuntura e regras de convivência harmônica com a natureza ensinada pelo Feng Shui.

Constata-se no mundo moderno, diferentemente do mundo antigo, que não está ocorrendo uma busca de soluções respeitando os ciclos da natureza, que eram percebidos e tratados como obras da divindade e então respeitados.

Há também, como desdobramento do mesmo problema, uma crença cega nas “maravilhas da ciência” sem qualquer interesse em conhecer seus fundamentos em sem questiona-los, exemplificando a influência do consumo de alimentos geneticamente modificados. Há uma perda generalizada de interesse pelas questões fundamentais da vida, da filosofia, da ética, dos problemas sociais e dos desafios que estamos enfrentando no mundo atual.

Paralelamente, há uma busca pelo prazer, pelo benefício próprio e exclusivo, a busca de soluções imediatas que se resolvem por implantes de seios e glúteos, a necessidade do aumento do pênis, o consumo abusivo de Viagra e o uso exponencial de cosméticos e medicamentos para emagrecer. Há uma crise de inteligência criativa, uma tendência a aceitar paradigmas e um agnosticismo social marcante.

A natureza do homem é por sua vez orientada a buscar soluções reais baseadas na visão consciente e na razão, ao mesmo tempo que pode viver abstrações emotivas criando sua própria percepção da realidade e reagindo consciente e inconscientemente a ela.

A essência da natureza humana é a busca da verdade por aquilo que consegue ver com os olhos de sua mente e alma para então encontrar a Harmonia entre os dois hemisférios de seu cérebro entrelaçados através de seus processos conscientes e inconscientes. Processos que se expressam em última análise através das ferramentas da ciência e nas respostas que encontra para as perguntas fundamentais que o ser faz a si mesmo em um ato contínuo na busca do auto-conhecimento.

Perguntas e respostas que são a essência da metafísica em sua expressão religiosa mais genuína, e que definirão nossas escolhas, formarão nossa base de valores e moldarão nossa personalidade pela afirmação ética e moral diante dos estímulos que receberemos dos desafios do presente século para nossa perpetuação individual e coletiva.

Precisamos lembrar de nossas raízes, do modo como as civilizações foram formadas e como elas consideraram a aliança entre a ciência e a espiritualidade, e cuidar melhor de nossa casa para que o nosso futuro seja próspero e contínuo e mesmo eterno,

porque com nossos pensamentos criamos o mundo

Buda