Será possível algum dia viajar para o passado?

No filme “De Volta para o Futuro” (foto do post) Marty McFly volta para o passado e consegue alterar seu destino, mas será que um dia isso vai ser possível?

Na física existe uma possibilidade teórica de que o tempo retroceda, que é conhecido como uma viagem através das pontes de “Einstein-Rosen”, assunto do filme Déja-Vu que explicarei em outro post. Voltar no passado, no entanto, é diferente de voltar no tempo, como vimos no post “O Tempo”. O passado está relacionado com acontecimentos, eventos, mas o tempo não, ele sempre está lá, como um oceano que nos envolve.

Uma primeira possibilidade é simplesmente não, que não seja possível voltar no tempo, nem tampouco no passado, e assim temos um universo único e dependente do tempo, que caminha progressivamente para o futuro, referenciado, por exemplo, a partir do “Big Bang”.

A questão aqui é complexa no sentido que, como vimos nos 3 posts anteriores, o Tempo está associado ao espaço (o espaço-tempo), que pode mudar conforme o referencial (se estamos parados ou acelerados, por exemplo), mas a percepção do tempo (a ilusão dos filósofos idealistas) é baseada em fatos e os fatos são irreversíveis, eles não voltam atrás. Para voltar no passado, não se trata de fazer eventos simultâneos passarem em tempos diferentes conforme cada referencial, de acordo com a teoria da relatividade, mas sim de fazer estes eventos “desacontecerem”….

A segunda lei da termodinâmica mostra que em nosso universo todos os fenômenos são irreversíveis, isto é, não podem voltar atrás sem consumir energia e que a reversibilidade é uma condição ideal, inexistente, onde a entropia do ciclo (a soma de todas as perdas) seria zero. Isto falando em ciclos, como o movimento de um pistão de carro, por exemplo. Para fazer o pistão continuar subindo e descendo no cilindro precisamos gastar combustível, senão ele para. Porém, o evento em si, aquela volta especifica do pistão ocorrida no tempo T, nunca mais ocorrerá. Naquela volta, havia uma temperatura no pistão, as moléculas vibravam e os elétrons se distribuíam de tal forma nos núcleos que esta condição microscópica jamais se repetirá e o material jamais voltará a ser o que foi.

Voltar no passado é, portanto, muito mais do que fazer o pistão voltar para trás, é necessário fazer todos os incontáveis eventos microscópicos do universo voltarem.

Uma vez que qualquer sistema que possa existir – uma máquina do tempo por exemplo, localizada no piso de um laboratório, como no filme “O Homem do Futuro” – só poderia alterar o seu próprio referencial (conforme a teoria da relatividade), fica absolutamente claro a impossibilidade de fazer todos os fenômenos microscópicos do universo retornarem, quando muito, somente voltaria no passado o objeto que entrou na máquina e talvez, a própria máquina.

Por exemplo: você entra na máquina do tempo e aperta o botão para voltar apenas 5 minutos. Imediatamente você se vê caminhando novamente no corredor para a máquina e novamente a ajusta para 5 minutos e aperta o botão e imediatamente você se vê caminhando novamente no corredor para a máquina e…… Observe que você caiu em um “loop” (laço) de onde jamais poderá sair, porque quando voltar, sua memória não pode trazer nada do futuro, porque, se de fato você voltou no tempo (e os eventos também), todos os eventos microscópicos voltaram para trás, seu conhecimento, sua memória, absolutamente tudo….

Seria um absurdo e um despropósito completo que a máquina fizesse que você voltasse para o corredor que dá acesso ao laboratório, mas também fizesse o tempo voltar para tudo o que está no laboratório, e tudo o que está no mundo junto com você (não foi somente você que entrou na máquina?). Por exemplo: quando você estava no corredor, cruzou com aquela paquera que você admira e trocaram sorrisos. Ao voltar no tempo com a máquina, porque motivo ela deveria passar novamente no corredor, se para ela o tempo segue em frente e ela não entrou na máquina com você?

Notou como os filmes mostram o contrário? Quando alguém entra na máquina, o que está fora volta no passado mas a pessoa que entrou não… Trata-se portanto de uma máquina absurda, que é capaz de mudar o universo, mas não a pessoa que está dentro dela…

Se você voltar e encontrar com aquela pessoa novamente, então estará num universo determinista (veja abaixo) ou em um universo paralelo idêntico ao nosso. Concluimos portanto que a maioria dos filmes que assistimos só pode ser explicado desta forma; quando alguém entra na máquina do tempo ela sai do nosso tempo e do nosso universo e vai até outro igualzinho a este e, a partir do momento de sua chegada, ela pode altera-lo, além de levar os conhecimentos que possui. Na atualidade, isto é algo impensável até mesmo para a ficção científica….!

Pela teoria da relatividade, um referencial só pode sofrer alterações em si mesmo, não pode mudar o outro referencial. Não é porque eu estou mais rápido que isto pode alterar a vida de outra pessoa, que está parada, altera-se apenas a sua observação a meu respeito.

Dissemos que o Tempo não é absoluto, o que é verdade ao comparar dois referenciais (a pessoa que está parada e aquela que está correndo), mas ainda assim ele é absoluto para cada referencial. Não é absoluto para todos os referenciais, mas é absoluto para um mesmo referencial. Sobre isto diz Einstein:

De acordo com a Teoria da Relatividade Restrita, as coordenadas de espaço e de tempo, ainda conservam um caráter absoluto, já que são diretamente mensuráveis pelos relógios e corpos rígidos. Mas tornam-se relativos já que dependem do estado de movimento do sistema de inércia escolhido. O continuum de quatro dimensões, realizado pela união espaço-tempo, conserva, de acordo com a teoria da relatividade restrita, o caráter absoluto que possuíam, conforme as teorias anteriores, cada um tomado à parte.”

Uma vez que um dado conjunto espaço-tempo de um referencial específico é absoluto, não há porque acreditar que o tempo possa voltar para trás para todos os referenciais simultaneamente.

Isto só aconteceria se você retornasse no passado para um Universo Paralelo Idêntico, isto é, o Universo que você estava continua a “seguir a sua vida” enquanto você segue agora em outro Universo, como no filme “Código Fonte”. O problema aqui é que você vai encontrar com você mesmo vivendo lá, o que o filme espertamente resolveu fazendo com que o viajante entrasse no corpo de uma outra pessoa. O assunto sobre Multiversos e universos paralelos eu deixo para outro post.

Há uma outra forma de fazer tudo voltar para trás. Mas para isso precisamos acreditar que o universo é determinista, que tudo o que está acontecendo já foi previsto e determinado, inclusive o futuro.

Imagine que tudo o que está ocorrendo faz parte de um filme. O filme está guardado no “porta CD´s” do Multiverso. Você pode ir para trás e para frente no filme, na velocidade que quiser, quantas vezes quiser. Agora não precisamos de um universo paralelo, a máquina apenas “volta a fita” para os que estão dentro dela. Isto não é um modelo totalmente absurdo. Lembre-se que o tempo passa diferente para você do que para seu vizinho de outro andar e os dois estão no mesmo prédio……todos “fazem parte do mesmo filme”, mas a velocidade de avanço de cada um é diferente.

Este modelo só tem um “probleminha”… do que adianta voltar a fita para trás se você não pode mudar absolutamente nada? Se tudo está determinado, nada mudará, e você voltará no passado para ser criança, ou nem ter nascido ainda…

Nos parágrafos acima assumimos, na melhor hipótese, que os eventos do referencial que se movimenta ou está sobre a ação da gravidade, podem retroceder. Mas na impossibilidade dos eventos regredirem, fica a volta no tempo condicionada ao próprio tempo, mas não aos eventos.

Retroceder o tempo, não implica necessariamente em fazer que os eventos acontecidos voltem para trás, ou seja, voltar para o passado, uma vez que o passado é caracterizado através dos eventos, mas o Tempo não, como vimos no post “O Tempo”. Podemos portanto voltar no tempo sem que nada tenha “desacontecido”, como ocorre quando voltamos o relógio no fim do horário de verão.

Um exemplo seria uma nave que sai para uma viagem de ida e volta para as imediações da estrela mais próxima (alfa centauri) e a viagem dura 5 minutos ao invés de durar mais de 8 anos (para quem os observa da Terra). Os viajantes vão até o local e, durante a volta, retornam no tempo até quase o momento de lançamento, se alguém morreu durante a viagem não ficará vivo, porque nenhum evento pode retornar para trás, quando muito, o tempo. Não poderiam voltar no tempo antes do lançamento porque modificariam os eventos já ocorridos neste referencial, de modo que deve haver alguma lei física que impeça ir além deste ponto. Além dele estaríamos realmente voltando para o passado, o que conduz ao paradoxo do “filho que matou seu pai” levando à pergunta de como o filho poderia ter viajado se, de fato, não poderia existir?

Stephen Hawking, no seu livro “Uma Nova História do Tempo” (Ediouro – 2005) argumenta que:

se for possível viajar no tempo, porque ninguém voltou do futuro e nos contou como faze-lo?

….. é difícil acreditar que nenhum visitante do futuro, inadvertidamente ou não, deixasse vazar o segredo….
…..as leis da física conspiram no sentido de impedir que os corpos macroscópicos transportem informações para o passado. Esta conjectura não foi demonstrada, mas existe uma razão para acreditar que ela seja verdadeira….

Por ainda não estar claro se este é o caso, a possibilidade das viagens no tempo por enquanto é uma questão em aberto. Mas não aposte nela, seu oponente poderia ter a vantagem injusta de conhecer o futuro”.

Não desanime! Vamos continuar tentando voltar ao passado em um post futuro. Enquanto isto, assista o divertido filme “Feitiço do Tempo” (Groundhog Day) de 1993 com Bill Murray e Andie MacDowell que trata de um “laço de tempo” parecido com aquele que comentamos.