Ainda dentro de tema “Dualidades” e dando continuidade ao post anterior, podemos perceber que ciência e religião, física e metafísica, objetividade e virtualidade, determinismo e probabilismo, cruzam-se frequentemente no campo das idéias e essa aparente disputa aparece na mente dos cientistas desde o início da ciência e continua hoje, mais viva do que nunca no século XXI.

Há presentemente uma batalha entre cientistas que alegam que há colegas querendo “desvirtuar” a ciência transformando-a em religião, abrindo inclusive espaço para o incluir Deus …. Eles se referem, por exemplo, a Amit Goswami, importante cientista hindu que vive nos EUA, é PhD em mecânica quântica e professor titular de física da universidade de Oregon e ao conhecido Fritjof Capra, doutor em física e professor da Universidade da Califórnia, autor de muitos livros, entre eles o famoso “O Tao da Física”.

De fato, à medida que “entidades não observáveis” são introduzidas na ciência ela se aproxima da religião e com ela se funde, ou confunde. E isso representa uma nuance de significados, positivos ou negativos, dependendo de quem os analisa.

De um lado, temos aqueles que defendem que a ciência deve se apoiar completamente em causalidades, relações de causa e efeito bem definidas que tem estados de início, caminho e fim, e se apegam à visão de Albert Einstein, que reformulou a mecânica clássica de Newton.

Mas até onde vai a objetividade na ciência? Ernst Mach (1838-1916), filósofo e físico que exerceu grande influência sobre Einstein, afirmava que, ou uma proposição é demonstrável experimentalmente ou deve ser abandonada, considerada como metafísica e sem fundamento, validando a opinião do químico Wilhelm Ostwald que o conceito de átomo era inútil e supérfluo em física.

De outro lado, temos teorias que descartam a existência formal de um único caminho para tudo, uma realidade objetiva. Na mecânica quântica, a cada partícula se deve associar um conjunto de ondas concentrado no espaço e se propagando nele. Por exemplo, um elétron em um átomo é associado à uma onda estacionária e isto resolve uma série interessante de problemas, mas a natureza dessas ondas é um enigma. Na verdade, são espaços de probabilidade onde a partícula pode ser encontrada, são ondas de probabilidade, portanto virtuais e não reais.

Se aplicarmos o princípio da incerteza ao elétron, por exemplo, segundo a teoria do americano Richard Feynman, mesmo no espaço vazio, pares de partícula / antipartícula virtuais aparecem e se aniquilam reciprocamente. Não se parte da premissa que a partícula tenha uma única história ou caminho, pelo contrário, supõem-se que ela vá do ponto A para o ponto B por todos os caminhos possíveis e a probabilidade da partícula ir de A para B é o resultado da soma de todas as probabilidades de todos os caminhos.

Extrapolando esta ideia, não precisamos supor que nosso universo é único, que a partícula original que criou tudo, “a partícula de Deus”, tenha tomado exclusivamente este caminho, mas podemos imaginar infinitos Universos possíveis existentes para cada estado possível …

Outro ponto é que o mundo das probabilidades existentes na partícula é transformado em realidade somente ao ser observado e esta transformação então depende do observador de modo que antes da medição essa realidade objetiva “não existia”, ideia a que Einstein se opôs obstinadamente. Veja o post “A Possibilidade em Aberto”.

Tais premissas abrem espaço para que, alguns, como os cientistas citados, se apoiem nisto para criar uma relação entre a física e a espiritualidade.

Sobre a interpretação “ortodoxa” da mecânica quântica Einstein disse:

“A idéia de um elétron exposto à uma radiação que escolha livremente o momento e a direção para onde quer ir me é insuportável. Se assim fosse, eu preferiria ser sapateiro ou até mesmo empregado de cabaré a ser físico”. E ainda em uma carta a Max Born ele escreveu sua famosa frase:

“Você acredita em um Deus que joga dados, e eu no valor único das leis no universo onde algo existe objetivamente”.

Quem poderá provar essas teorias? E se não puderem ser experimentadas devem ser descartadas? Se são utilizadas com tanto sucesso na eletrônica moderna porque não podemos extrapolar suas afirmações e criarmos um paralelo com o Taoismo chinês?

Essas são questões complexas e que estão gerando um grande debate sobre até que ponto a ciência deve manter sua objetividade e causalidade e até que ponto a teoria da complementaridade de Heisenberg deve ser aceita e introduzida na física, deixando cega a “navalha de Ockham”.

Segundo o Dr. José Croca, professor do Departamento de Física da Faculdade de Ciências de Lisboa, que representa o lado racionalista da ciência, toda teoria em seu início tem sua limitação e esta vai com o tempo sendo questionada e na maioria das vezes é eliminada.

Assim, por exemplo, mostrou-se no início do século passado, que a teoria de Newton, a mecânica clássica, tinha limites de validade e, portanto, não era, como se afirmava, a teoria completa e infalível válida para todas as escalas de observação e descrição.

“Nessas condições, pretender que a mecânica quântica ortodoxa seja uma teoria completa e definitiva, em suma, a última verdade, constitui, a meu ver, um ato mais religioso que científico, ou então, na melhor das hipóteses, uma atitude ingênua”.