Após abordarmos os aspectos psicológicos e os aspectos sobrenaturais, vamos falar mais sobre uma possível explicação humana para o fenômeno relativa à construção e evolução do que poderíamos chamar de “mito dos discos voadores do século XX”.

Primeiramente, é nítido observar que existe um aumento progressivo da observação de discos voadores a partir de 1940, com o início da segunda guerra mundial. Haveria um motivo para isso?

Tudo começa com o com as descobertas astronômicas feitas por Galileu, Copérnico e outros que mostraram que o planeta Terra não é o único e nem o centro do universo e que o céu é bem maior do que parecia ser. Passa também pela libertação progressiva da censura religiosa imposta pela igreja católica romana, permitindo questionamentos como o da Terra ser ou não um disco plano e criando ao mesmo tempo o mito dos monstros marinhos e outros baseados no que haveria “no fim do mundo”, ao se navegar pelos mares até alcança-lo. Surge então a teoria científica de que ela poderia ser redonda, explicando tudo, mas estes mitos e fantasias se transformam e assim permanecem até hoje, como a existência de civilizações submersas ou habitantes do centro da Terra por exemplo, a chamada “Terra Oca”.

Temos um ciclo portanto de mitos antigos, descobertas da ciência e a manutenção dos mitos antigos de outro modo, numa versão sempre atualizada…

O início do Renascimento permitiu que as pessoas pudessem imaginar e criar e, a partir da invenção da imprensa por Guttenberg em 1440, pudessem expressar seus pontos de vista, medos e angústias e permitiu o desenvolvimento da Ciência e com ela, a literatura.

Citamos os trabalhos de William Gilbert sobre o magnetismo e a eletricidade publicado em 1600 e outros até a célebre experiência de Benjamim Franklin em 1752 quando supostamente amarrou uma chave em uma pipa e a empinou com um fio metálico nas nuvens em um temporal provando que o raio era um fenômeno elétrico, uma outra lenda, dado que se fizesse realmente isso com as mãos teria morrido. Muitos outros cientistas serviram como fonte inspiradora que excitaram a imaginação de escritores e filósofos. Assim, por exemplo, Voltaire publicou em 1752 um livro filosófico chamado Micromegas, onde fala sobre um visitante extraterrestre vindo de Sirius, que na verdade é a estrela mais brilhante do céu noturno, da constelação de Cão Maior.

No século XIX surgiu o eletromagnetismo com as célebres experiências de Faraday (1821) e o sensacionalismo das descobertas de Edison, inventor da lâmpada elétrica (1879) e Nicola Tesla com a sua “transmissão sem fios” por ondas de rádio (1894) entre muitos outros, permitindo à literatura ganhar um corpo fabuloso de possibilidades criativas. Surge então o gênero ficção científica, espetacularmente representado por Julio Verne em “Viagem ao Centro da Terra” (1864) e vários outros publicados até 1904 e H. G. Wells que em 1895 escreveu “A Máquina do Tempo” e “A Guerra dos Mundos” (1898) que influenciaram milhões de pessoas pelo mundo.

Como podemos ver, nós tecemos até aqui um cenário gradual entre o imaginário popular e as então consideradas amplas e ilimitadas possibilidades científicas descobertas até 1908, com a teoria da Relatividade de Albert Einstein, que permitiu a idéia de viajar no tempo e que levaram ao surgimento das revistas “pulp fiction”, publicações baratas, feitas com papel de baixa qualidade, surgindo as famosas “histórias em quadrinhos”, normalmente de ficção científica com naves interplanetárias, discos voadores e alienígenas de todos os tipos, bons e maus.

Mas o século XX foi duro, uma época de imenso sofrimento por causa da primeira guerra mundial (1914–1918), revolução russa (1917), quebra da bolsa de valores de Nova York (1929) e segunda guerra mundial (1939–1945).

Assim, contra todas as injustiças e invasões extraterrestres surgiram os primeiros grandes heróis populares “Buck Rogers” (1929), “Flash Gordon” (1934), “Superman” em 1938 e “Capitão América” em 1941.

Observe o leitor que somando o desenvolvimento da ciência com a imaginação popular incentivada pela literatura e pela mídia comercial e as crescentes tensões mundiais temos aí um quadro perfeitamente cabível à explosão do “fenômeno UFO” e à possível criação de um dos maiores mitos da história mundial. Lembrando também que os nazistas se aproveitaram disto para criar modelos de discos voadores e através do seu ministério da propaganda divulgar a ideia que eles teriam uma “superarma” (vide “UFO: Arma de Guerra?”).

Seria por acaso que o “Capitão América” usa um “disco voador” para sua defesa?

A prova desse cenário é que em 1938, portanto um ano antes do início da segunda guerra mundial e frente ao medo da ascensão do nazismo, Orson Welles, nos EUA, produziu uma transmissão radiofônica, ao vivo, relatando o livro de Wells “A Guerra dos Mundos” que ficou famosa por provocar pânico nos ouvintes que imaginaram uma invasão extraterrestre.

Creio que isso explica tudo o que temos visto e ouvido antes da queda do muro de Berlin na noite de 09 de novembro de 1989…. marcando o fim de uma era que iniciou em 1919 e envolveu duas guerras mundias e a guerra fria entre EUA e a antiga URSS, que talvez por um “milagre de Deus” não puseram fim à humanidade…

Mas o fenômeno UFO ainda permanece até nossos dias… poderíamos dizer que o mito ainda levará dezenas de anos para terminar? Permanecerá para sempre mudando sua forma e apresentação? Ou poderíamos dizer que antes de 20 anos faremos contatos extraterrestres como afirmou recentemente o cientista russo Andrei Finkelstein, diretor do Instituto de Astronomia aplicada da Academia Russa de Ciências?.