Luz
Algumas perguntas que fazemos várias vezes durante a vida são: O Universo é infinito e sempre existiu? O que é o infinito? Se o Universo foi criado de uma explosão, o que havia antes disso?

Fazemos estas perguntas porque não conseguimos aceitar logicamente nada que exista para sempre, ou que seja infinito, e isso decorre do fato desse pensamento ser completamente diferente de nossa vivência cotidiana.

Do mesmo modo, como desenvolvemos no post “O Limite da Ciência” e no post “O Vácuo Quântico”, a aceitação de vazio eterno é igualmente rejeitada pela nossa lógica.

Assim chegamos a uma situação interessante: Temos dificuldade em aceitar algo que exista para sempre e rejeitamos por completo a possibilidade de inexistência de tudo, até porque somos capazes de “perceber” que existimos. Zero e Infinito são assim estados incompreensíveis e não por acaso, matematicamente, levam a situações conhecidas como Indeterminações.

Mas existe um possível erro nesta análise: ela parte da ideia que exista uma dualidade quando não é necessariamente obrigatório que isto aconteça em alguns casos. Assim, dizemos que ou algo existe ou não existe, mas é possível que essa dualidade não esteja sempre correta.

Nossos olhos e nossos instrumentos de medida talvez não sejam capazes de detectar, mas existem muitos fenômenos da natureza que não são percebidos por nós, alguns foram descobertos apenas recentemente, como a passagem de neutrinos e múons pelo nosso planeta.

Costumamos dizer que algo ou está certo ou está errado, que é possível ou impossível, que é bom ou é mau, e assim criamos e vivemos conceitos de dualidades usados para comparações em nossa vida diária mas que não nos ajudam muito na compreensão dos fenômenos físicos.

Por isso, ao pensar na natureza do Universo, temos enorme dificuldade em enxergá-lo com o pensamento dualista.

Vimos no post “Dualidade ou Complementaridade?” que na arte pontilhista sombras e luz ao serem colocadas juntas formam um conteúdo único, não são mais sombras e nem luz, formam ilusoriamente linhas de contorno, linhas que não foram desenhadas. Comparamos com a dualidade partícula–onda do comportamento da luz e do próprio átomo, cuja soma dos pesos de suas partículas separadas (nêutrons e prótons) é superior ao seu peso real ao estarem juntas no núcleo, o que se atribui à transformação de parte da massa em energia de ligação interna de modo que massa e energia formam uma só entidade. Nesse caso, luz e sombras, massa e energia, ondas e partículas, compõem realidades únicas.

No post que falamos da “Partícula de Deus” dissemos que o Bóson de Higgs cria massa em outra partícula que passa pelo seu campo, uma massa “que surge do nada” e que esse conceito é bem mais interessante do que pensar na massa como se fosse uma “bolinha indivisível”. No post “O Quinto Elemento” comentamos que a ideia de Aristóteles da existência de “elementos essenciais” é melhor do que a denominação “partículas elementares” que nem sequer são partículas (termo atribuído à pequenas divisões da matéria, conforme o conceito de átomo de Demócrito).

A realidade se manifesta diante de nós de um modo que nos confunde ao utilizarmos conceitos dualistas de modo que é necessário para interpretá-la assumir outro estado além destes.

Vamos repensar então nosso Universo desse modo e ver onde podemos chegar com essa hipótese.

Imagine que ao invés do binômio “Ser ou Não Ser” ou “existo ou não existo” ocorra uma outra realidade. Algo que exista e não exista ao mesmo tempo (!!!).

Feynman Isso parece errado, bizarro ou alguém poderia até dizer “ridículo”. Mas é justamente o que Richard Feynman, um dos maiores físicos do século XX, postulou ao dizer que a todo momento partículas e anti-partículas são formadas e se aniquilam mutuamente no espaço quântico (ou Vácuo Quântico).

No caso, teríamos uma essência simbolizada por +i e a outra essência simbolizada por -i e estas realidades (cf. Feynman são partículas virtuais) convivem umas com as outras num tempo muito curto, ora predominando uma, ora outra, porém, estatisticamente falando, ocorre uma média zero em um “equilíbrio dinâmico”.

Vejamos um exemplo de equilíbrio dinâmico: um pingo de corante em um recipiente com água. O tempo passa e o corante se dispersa até que não ocorra nenhuma outra variação e dizemos que o sistema entrou em equilíbrio. gotas Ocorre que, estatisticamente, não seria impossível voltar na sala e ver o corante ocupando só uma parte do líquido e a outra sem corante uma vez que as moléculas se movimentam aleatoriamente em todo o volume. A probabilidade que isto aconteça, no entanto, tende a Zero.

Dizemos assim que a concentração de corante é constante em todo o volume do recipiente, mas isso é uma média, uma aproximação macroscópica e que não é verdadeira se considerarmos o espaço microscópico em seu interior e então dizemos que nesse espaço macroscópico ocorre um equilíbrio dinâmico.

Agora temos um interessante modelo de vazio ou Zero. Um “pseudo vazio” composto por duas essências que se aniquilam quando estão juntas e formam realidades distintas quando estão separadas, realidades que existem por tempos determinados e muito pequenos de modo que a somatória de suas ações resultam em acréscimos e diminuições sucessivas e cuja média central resulta em zero escalar. Podemos chamar esse vazio de “espaço quântico” ou Vácuo Quântico.

A ideia pode ser entendida se observarmos que em nosso universo há uma incansável busca pelo equilíbrio em todos os seus processos expontâneos e que o equilíbrio nada mais é do que uma resultante nula das forças que agem sobre um dado sistema, como se todos os processos fossem naturalmente orientados a buscar o perfeito equilíbrio existente no espaço quãntico.

Verificamos isto também através da lei da conservação de cargas em um átomo por exemplo, sendo o núcleo carregado positivamente e a eletrosfera negativamente e o caminho termodinâmico que a reação percorre até o balanceamento das cargas de cada átomo nas moléculas que participam de uma reação química.

Vamos agora ampliar nossa visão e imaginar que em um determinado sistema existam não apenas duas, mas diversas essências e que a soma ponderada de todas elas resulte em Zero ou equilíbrio. Não um zero local, pontual, microscópico, mas um Zero global, em sua média estatística compondo toda sua grandeza. Como referência e comparação, lembramos que em nosso Universo acreditamos existirem 16 partículas elementares organizadas em duas famílias – Férmions e Bósons, sendo a família dos Férmions composta dos Quarks e dos Léptons.

Imaginemos também que esse espaço quântico é tão imenso que surjam dentro dele a todo momento descontinuidades abruptas de formação e aniquilação sem no entanto modificar sua energia global, o que caracterizaria uma situação de macro equilíbrio termodinâmico e conservação da entropia mas com descontinuidades locais, como no exemplo do corante disperso na água.

Essa ideia pode ser aplicada também quando postulamos a existência do Multiverso onde o Universo que existimos passa a ser um elemento infinitesimal dentro dele.

Caso a hipótese esteja correta, passamos agora a “entender” como e porquê o nosso Universo existe, como ele foi formado e para onde ele caminha.

Poderíamos também conjecturar sobre a essência da “matéria ou energia escura” como sendo a parte imaterial que falta em nosso Universo para compensar parcialmente (o nosso universo não é o Multiverso, não precisa haver equilíbrio completo) a presença de matéria pesada. Esta tem força de gravidade oposta à da matéria escura e que explica o afastamento entre as galáxias.

A matéria escura é formada de partículas elementares (que aqui chamamos de essências) agrupadas de modo diferente do que nos férmions (prótons, nêutrons e elétrons entre outros) e é possivelmente uma evidência sobre a existência do Multiverso, onde a matéria está agrupada de modo diferente de nosso Universo que, no entanto, contém em seu interior essa matéria “estranha” mostrando parte da diversidade possível de combinações das partículas elementares.

Imagine um Multiverso composto por uma quantidade incontável de Universos dentro dele e que cada Universo, à semelhança de uma partícula, tenha um oposto com o qual se aniquile, por exemplo, um Universo formado por partículas e um por anti-partículas. Agora temos uma realidade macroscópica que imita uma realidade microscópica, onde partículas elementares interagem umas com as outras formando o Vácuo Quântico e dentro dele descontinuidades (o Big Bang) que formam Universos. O fundamento de todo o Multiverso, onde está nosso Universo é então o Vácuo Quântico, onde a questão Ser ou Não Ser não possui sentido.

Esse modelo pode finalmente responder às perguntas que fizemos no primeiro parágrafo, ou seja, o nosso universo é finito e temporal mas é parte de uma realidade maior que é infinita e assim permanece. Zero e Infinito se tornam agora uma única realidade melhor entendida pelo princípio da Complementaridade.

Chegamos assim a uma fronteira, a um dos limites de nossa Ciência.