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Observe a pintura ao lado, “Model in Profile”, do pintor francês Georges Seurat (1886) que está no Musee d’Orsay em Paris.

Para realizar seu trabalho artístico, ele aplicou as teorias científicas sobre a luz desenvolvidas no século XIX.

Usou a idéia sobre o contraste das cores do químico francês Michel Chevreul, a lei do contraste simultâneo das cores (livro de 1839), segundo a qual duas cores, uma ao lado de outra, sem serem mescladas, têm sua aparência original modificada. Por exemplo: uma cor fria e uma cor quente justapostas se reforçam simultaneamente, assim como uma cor quente com uma cor quente se esfriam, ao contrário de duas cores frias, que se aquecem.

Utilizou a descoberta do físico escocês James Clerk Maxwell (1850) que as cores podem ser misturadas e enxergadas formando uma mistura ótica, da mesma forma que na paleta dos artistas.

Inspirou-se também no artista e pesquisador americano Ogden Rood que propôs em 1879 que efeitos óticos idênticos acontecem quando diferentes cores são colocadas lado a lado em linhas ou pontos e, então, observados a uma certa distância, a mescla é completada pelo olho. Em suas pinturas, Seurat também recorreu à técnica da simetria dinâmica, usando retângulos de ouro, tal como Piet Mondrian e Leonardo Da Vinci.

Através de toda esta bagagem científica Seurat criou a escola chamada Pontilhismo (ou divisionismo) que mais tarde deu origem ao neo-impressionismo. A novidade consistia em justapor pontos de cores brilhantes e contrastantes para que a forma fosse percebida sem que se usasse a linha para contorná-la.

Em suas esboços, trabalhava somente com matizes de cores puras em sua paleta, que foram arranjados na ordem do espectro para criar uma trama de cores, usando pontos de tons contrastantes que representam o entrelaçamento das cores naturais com as cores da luz e seus matizes de sombras complementares.

Seus trabalhos foram considerados como arte científica porque neles foram utilizadas proporções de luz e cor tais que demonstram que as misturas óticas criam o mesmo efeito de luminosidade que a luz.

Pode-se dizer que a arte pontilhista foi precursora da televisão e da imagem digital.

O quadro acima é o famoso Estudo de Seurat “Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte” (1884 – 1885) que está no Metropolitan Museum of Art de Nova York.

Ao observar este fantástico, maravilhoso quadro, o que ele poderia inspirar?

O ponto que quero chamar atenção aqui é a visualização que as Dualidades não são necessariamente incompatíveis entre si ou “mutuamente exclusivas”, como se diz na linguagem matemática. Os pontos, ao serem inseridos na tela constróem uma forma que não possui linhas que, entretanto, são vistas, aparecem na imagem; igualmente não há luz formada por um espalhamento de tinta pelo pincel ao cobrir o quadro, existem somente pontos claros e pontos escuros que criam o efeito de luz e sombras.

Este quadro remete a uma questão de 1926 que está presente ainda hoje na mecânica quântica e em muitas outras dualidades que encontramos não apenas na ciência, mas também em nossas vidas.

Como se pode entender o dualismo entre ondas e partículas que a luz apresenta e é comprovado em diferentes experiências? Como se pode entender sua natureza ondulatória e ao mesmo tempo corpuscular?

Niels Bohr introduziu em 1927 uma nova ferramenta lógica que chamou de “complementaridade”. Esse termo designa um modo de considerar, sem contradição, dois conjuntos de conceitos que se excluem mutuamente, mas que são ambos necessários para explicar uma realidade.

O quadro acima, de 1934, pode ser visito no Museu de Arte Moderna de Nova York e se chama “A persistência da memória”, foi criado por Salvador Dali, um pintor catalão radicado em Paris e um dos fundadores do movimento surrealista.

Estes “relógios moles” transformaram-se em um ícone de sua obra. São instrumentos exatos, capazes de mostrar precisamente a passagem do tempo mas ao serem inseridos organicamente em um universo ambíguo, temperado pela casualidade e pelo prazer, criam um novo panorama, complexo e imprevisível, remetendo à teoria da relatividade de Einstein, capaz de prever as distorções no espaço-tempo antes que pudesse ser comprovada e às pesquisas de Freud sobre o inconsciente e a importância do fenômeno dos sonhos. A arte surrealista tem assim por princípio mostrar uma visão oposta à simples objetividade e racionalidade da percepção imediata da realidade.

Agostinho, bispo de Hipona, no século quarto, questionou a natureza do tempo e então percebeu uma estranha contradição:

Parece que o Tempo, de uma certa forma, não existe, pois o Passado não existe mais, o Futuro ainda não existe, e o Presente é infinitamente pequeno, sendo assim, como poderia existir?

Um dos pensadores mais influentes da era moderna, o filósofo idealista alemão, Immanuel Kant (1724) introduziu o conceito de que todos nós trazemos formas e conceitos que não provém necessariamente de nossa experiência, mas que existem, “a priori”. Para ele, o tempo é uma noção “a priori” que não designa nada além de determinada característica do nosso modo humano de receber informações através dos sentidos e assim, questionou a sua realidade.

John McTaggart (1866), professor do renomado filósofo Bertrand Russel, afirmou que o tempo cria em nós uma ilusão como a da ilustração seguinte, e também duvidou de sua realidade por causa do regresso ao infinito :

Ser *presente* é ser **presente no presente**, ter sido futuro no passado e vir a ser passado no futuro. Ser **presente no presente** é ser ***presente no presente no presente***, ter sido futuro no passado no presente, vir a ser passado no futuro no presente… e assim infinitamente conforme podemos acompanhar pelos asteríscos que marcam a evolução de um ciclo interminável de laços que criam a ilusão do tempo.

Mas, o que seria o Tempo? Ele realmente não existe?

Essa intrigante pergunta é feita algumas vezes na vida por cada um de nós e sentimos que ele existe porque tivemos um passado e planejamos um futuro. Em geral, entendemos o tempo por causa dos eventos que se passam em nossa vida, um aniversário, um casamento, e as vezes dizemos: como passou rápido! Ah, se eu pudesse voltar ao passado…, ou ainda: Gostaria de ter nascido no futuro!.

Percebemos a cada momento o que ocorreu e pensamos no que acontecerá e depois que ocorrer não poderá voltar atrás, um evento é irreversível. Essa irreversibilidade é como a morte do presente e temos tantas vezes, ao lembrar de alguém que ainda está vivo, o sentimento que o passado está morto, porque jamais poderá estar novamente no presente.

Einstein formulou o conceito de que o Tempo existe e está intimamente ligado ao espaço que nos cerca. O Tempo está sempre lá, imóvel como um líquido que estamos imersos… nós o atravessamos como em um rio que irá impor o ritmo de nossa viagem e o percebemos através dos eventos, ou causalidades, que causam em nós a sensação do antes e do depois, da causa e do efeito.

Os exemplos que comentamos sobre os filósofos que negam a realidade do tempo não são totalmente incorretos ao se observar que há uma confusão entre o Tempo e sua ilusão causada pela percepção dos eventos que formam o presente, o passado e o futuro. Tempo e Causalidade são duas coisas diferentes.

Para entender o Tempo e separa-lo dos eventos que criam em nós esta “ilusão”, vamos imaginar um universo sem nada, vazio, onde não ocorrem eventos. O Tempo está lá, chamado de espaço-tempo por Einstein (o conjunto das 3 variáveis de dimensão e o tempo) e em nosso exemplo ele é igual em toda a dimensão do universo em uma eternidade silenciosa.

Vamos colocar neste universo vazio um planeta, um solo, uma mesa de ping-pong e então soltar uma bolinha que irá bater na mesa exatamente em 1 segundo e faze-la repetir assim este movimento precisamente.

Notaremos que o Tempo sempre esteve lá, mas agora sentimos a sua “passagem” ou melhor, o percebemos através do evento que criamos.

Mas vamos observar a bolinha estando ao lado dela. O seu movimento parece um fato “incontestável”, ou absoluto. Ficamos a observar então seu movimento vertical frequente.

Vamos colocar a nossa mesa sobre um caminhão que tem uma velocidade e vamos pedir ajuda a um amigo que fica “parado” em um ponto vendo o caminhão passar e se distanciar. A bolinha continua a bater e voltar na mesa de segundo em segundo porém o nosso amigo verá algo diferente, ele verá a bolinha saltando e perceberá dois componentes do movimento (horizontal e vertical). Como duas pessoas, olhando para a mesma bolinha podem ver coisas diferentes?

Bem, temos que admitir que o movimento observado depende do observador…. não é absoluto.

Do mesmo modo, Einstein mostrou que o tempo não é absoluto, mas está associado ao espaço e à matéria; ocorre que o tempo passa diferentemente para pessoas ou objetos que se movem ou estão perto de campos gravitacionais. Isto significa, por exemplo, que se colocamos dois relógios idênticos de altíssima precisão, um no solo e outro no alto de uma torre bem comprida (onde há uma força da gravidade um pouco menor), haverá após certo tempo uma diferença entre eles e precisará ocorrer um ajuste (!!!).

Se colocarmos dois irmãos gêmeos lado a lado e então mandarmos um para uma viagem com velocidade próxima à velocidade da luz, quando ele voltar ele estará mais novo do que seu irmão, e esta diferença será maior quanto mais tempo durar a viagem. Istou ficou conhecido como o “paradoxo dos gêmeos” por causda da briga entre os dois. O irmão que ficou na terra disse que isto não era justo, porque ele deveria estar mais novo, uma vez que pelo princípio da igualdade entre os referenciais da teoria da relatividade, poderia ter sido considerado que a nave ficou parada e nosso planeta é que se afastou dela …

Agora podemos entender um pouco do pensamento bizarro de Salvador Dali; nem sempre aquilo que vemos é igual ao que outra pessoa enxerga, nem o que interpretamos, nem o que entendemos e nem o que ouvimos e é isso que torna o universo e sua complexa realidade fascinante e mostra porque a visão radicalista das coisas e a interpretação dogmática da informação leva ao desacordo e à separação, enquanto paralelamente ilustra a importância de sermos abertos à uma cosmovisão evolucionista e sempre sujeita ao questionamento.